
Numa pequena cidade em que todos conhecem todos, um homem vive isolado numa enorme mansão. Mas este homem não é comum. Ele foi criado por um velho cientista, dono de uma fábrica de biscoitos, que um belo dia tem a brilhante idéia de projetar e dar vida a uma invenção sua. Edward está quase completo, exceto por um detalhe: a morte repentina de seu inventor e construtor impediu que as tesouras, colocadas provisoriamente no lugar das mãos, fossem substituídas em tempo. Edward não pensa em sair da mansão e encarar o mundo lá fora. Mas o futuro reserva-lhe uma surpresa: Peg (Dianne Wiest), uma vendedora de cosméticos, resolve bater à sua porta e acaba travando uma amizade com o rapaz, convencendo-o a descer até a cidade. Após algumas descobertas curiosas e pequenas decepções em relação à civilização, Edward conhece a filha de Peg, Kim (Winona Ryder) e acaba por se apaixonar por ela. Mas o preconceito de Kim e os ciúmes do seu namorado tornam o sentimento de Edward praticamente impossível de ser concretizado. Tim Burton provou ser um bom realizador e espremeu o seu talento até a última gota, transformando um simples argumento (também de sua autoria), a história de um amor impossível, num filme altamente crítico e dramático. Tim Burton soube driblar tudo e ainda acrescentou motivos importantes para analisarmos este filme. Peg precisa enfrentar situações ridículas para conseguir vender e aplicar os seus produtos cosméticos. Ou seja, há uma violenta, fortíssima crítica em relação à indústria de cosméticos, que tem como principal objetivo “vender aparências”. Até porque ele mesmo (Burton) deve ter passado maus momentos na sua vida por causa da sua aparência. Além de poder mostrar sua revolta, Burton ainda acrescentou muita arte e design, como as belas esculturas de Edward. E, mais uma vez, ele deixou sua maior característica bem marcada neste filme: o visual “fake”. A cidade de aparência falsa, propositalmente parecida com um set de filmagens, as esculturas em árvores e gelo, os cabelos esculpidos e, por fim, nas cenas noturnas, o tradicional “dark” que acompanha o realizador desde “Batman” até “O Estranho Mundo de Jack”. Tudo bem que Johnny Depp quase não fala neste papel, mas suas expressões faciais nas cenas de desapontamento são de doer o coração. Sem contar o visual inesquecível de sua personagem. Winona Ryder, como quase sempre, está muito graciosa e ficou bem com os longos cabelos loiros. A cena em que ela baila sob a neve de Edward é simplesmente emocionante. Ainda mais somada com a interessante trilha sonora de Danny Elfman, que se baseia nos corais e terceiras vozes. Alan Arkin (Bill) está perfeito no papel do pai sereno e tranqüilo (até demais) e junto de Robert Oliveri (Kevin), o irmão mais novo de Kim, proporciona boas risadas. Mas por incrível que pareça a atuação mais marcante é a de Vincent Price, que aparece poucas vezes como o pai-criador de Edward, mas nos deixa de queixo caído na cena em que seu personagem tem um enfarte fulminante. “Edward Mãos de Tesoura” é um filme muitas vezes mau olhado pelos críticos, pois é visto como “O romance/fantasia de Tim Burton, estrelado pelo canastra do Johnny Depp”. Mas gente, não é bem assim. É bem verdade que Tim Burton andou exagerando na baixa qualidade de seus últimos filmes como o polêmico “Planeta dos Macacos”, por exemplo. Mas o Tim Burton de “Edward Mãos de Tesoura” ainda estava no estouro, abusando de seu talento de realizador. Portanto, você que não assistiu a esse filme por preconceito ou mesmo por falta de oportunidade, vale a pena conferir esta comovente obra do “patinho feio” de Hollywood, Tim Burton.